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Menina ou mulher?

Aula de educação menstrual na Favela Verdes

Antes mesmo de eu nascer, o doutor disse aos meus pais que era uma menina, já que para a medicina os meus órgãos genitais eram femininos. A partir daquele momento, começou a saga para a procura de um nome para a filha, a princípio seria Marcela, mas na época, havia acabado de nascer uma Marcela, e era necessário um novo nome, um nome bonito, de referências boas de outras pessoas com o mesmo nome: Juliana. 


Confesso que era um nome que não me agradava muito, mas não precisava me lembrar muito dele, afinal, poucas pessoas me chamavam de Juliana, era sempre Ju ou menina. E como falavam menina o tempo todo:

- Menina, senta direito! Fecha as pernas!

- Menina não fala assim, menina é educada! 

- Você está de castigo, menina não fica na rua brincando, isso é coisa de menino!

- Fica quieta, menina! Menina, não grita!

- Menina isso, menina aquilo, menina não… 


Até que então, eu menstruei, de uma forma estranha, caiu minha pressão e fiquei meio tonta na escola, fui para casa e vi um borrão na calcinha. Minha mãe, como sempre muito delicada, disse que eu havia menstruado, entregou-me um absorvente descartável e fechou a porta na minha cara. Eu pensei: Pelo visto vou precisar resolver isso sozinha. E resolvi, lendo revistas todateen e capricho, ouvindo uma conversa ali ou outra, uma consulta esporádica na ginecologista, mas nada era muito claro, talvez eu não precisasse saber muito mesmo e aceitar aquele ciclo mensal de menstruação.


De repente, comecei a ouvir da minha avó, tias e desconhecidos que eu havia virado mulher, ou melhor, mocinha. Com 10 anos, o tratamento começou a ser mais rígido, uma vigilância maior ao meu comportamento. A adolescência foi extremamente conturbada com os inúmeros bullyings e problemas familiares. A narrativa de como me chamavam continuava confusa.


Quando eu tirava 10 na escola, era parabéns menina.

Quando eu saía à noite e chegava fora do horário combinado, era mulher. 

Era menina e não podia namorar, mas era mulher para limpar a casa.

Percebi que em todas as minhas conquistas durante a juventude, sempre fui chamada de menina. Mas em todas as represálias e “obrigações da sociedade” eu era chamada de mulher. A situação ficou mais confusa quando eu analisei como tratavam o meu irmão, que era quatro anos mais novo. Quando o meu irmão não ia bem na escola ou fazia algo de errado, era chamado de menino. Quando conquistava algo, era chamado homem e muitas vezes, até no aumentativo: “um homão” (lembrando que sou do interior de São Paulo). Engraçado, nunca fui chamada de “mulherona”, aliás mulherão é relacionado ao corpo da mulher.


Quando eu fiz 20 anos, eu já morava fora há 4 anos e meu irmão tinha 16 anos, mas toda vez que voltava para casa, havia algumas nítidas diferenças: 

O meu irmão podia levar as namoradas para dormir em casa, eu não. 

O meu irmão podia dormir até tarde, eu não. 

O meu irmão podia sair e voltar a hora que quisesse e sem avisar, eu não.

Eu não podia usar o carro sem um longo discurso de justificativas e cuidados. 

Eu tinha como dever limpar a casa.

Eu tinha como dever ser uma pessoa organizada. 


Quando eu comecei a trabalhar de carteira assinada em tecnologia, o comportamento se repetia, era uma menina que ganhou mérito e promoção. Era menina demais para assumir funções complicadas e técnicas, mas era mulher para persuadir, ludibriar e encantar os homens.

A diferença de menina e mulher nas organizações era muito mais cruel: 

As meninas podem organizar a festa dos aniversariantes do mês?

É melhor as meninas ficarem com a organização, são melhores nisso. 

Você pode ir até lá conversar com ele? Com essa carinha, ele não vai dizer não. Agora se já for eu, esse marmanjo aqui, não vou conseguir nada. 

Alguma das meninas poderia fazer a ata da reunião?

Aquela mulher não é mulher, é nosso amigão.

Aquela mulher é um homem, é chefe, fala palavrão, manda em todo mundo, tem o meu respeito. 

Você só foi promovida porque saiu com o chefe.

Mulher que usa esmalte e batom vermelho para vir trabalhar é outra coisa para mim.

Você vai na festa da empresa e quem vai ficar com seus filhos?


Todas essas falas, eu presenciei. Elas foram ditas diretamente para mim ou para as minhas colegas de trabalho. Não havia vergonha, elas saiam de forma natural dos meninos e de algumas mulheres. Na visão destas pessoas, não havia nada de errado, é simplesmente como o mundo era e quem o questionasse, era considerada rebelde, fora das normas do mundo corporativo e merecia repressão.


Essa ainda é uma visão de uma mulher branca, jovem e solteira na época de 2015 a 2019, enquanto as mulheres mais velhas, casadas, com filhos e pretas, sofriam muito mais (quando havia mulheres pretas na tecnologia). 

Era exaustivo, mas eu nunca fui uma pessoa pacífica, sempre questionei, lutei e briguei por ter igualdade dentro e fora de casa. Neste percurso, morei com meu pai, morei com a minha mãe, briguei com meu irmão, lutei para ter meus direitos dentro da minha própria casa. No trabalho de tecnologia, cofundei o primeiro grupo de afinidade de equidade de gênero no Itaú Unibanco para tecnologia: Tech Pwr, enquanto estava em depressão dos assédios que sofria. Mudei de carreira e passei a trabalhar com organizações sociais e questionei o tratamento dado às mulheres, fui firme, comprei brigas não só minhas, mas das mulheres pretas e indígenas, e ganhei um burnout (nome novo para uma ansiedade doida). Mas, isso novamente, não me parou. Co-fundei o Instituto Rebbú, que tem a missão combater as desigualdades sociais e de gênero em Manaus no Amazonas porque eu ainda acredito na mudança por uma sociedade com equidade e é exatamente por aqui, que estou conseguindo escrever este artigo.


Para ter forças e conseguir seguir, retomo sempre a minha ancestralidade, lembrei da minha avó paterna que já desencarnou e foi “desquitada” e excluída da sociedade em uma época de muito preconceito, da minha avó materna que ficou viúva aos 23 anos, nunca mais se casou e cuidou de três filhos sozinha, sendo uma deficiente mental, a alta carga de trabalho do cuidado e cobranças da sociedade, fez com que ela tivesse um terrível alzheimer (antes mesmo de terminar este artigo, recebi a notícia que minha avó teve um avc). Da minha mãe, que passou por muitas e muitas dificuldades familiares, carregando um peso patriarcal que não lhe cabia. 


Afinal, as mulheres tem descanso?


Eu sou proveniente dessas forças e de muitas outras mulheres que me antecederam, mulheres sim, porque meninas, essas nunca foram, nasceram com o peso de ser mulher. 


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